Camaçari sedia momento histórico de formação antirracista na educação básica
A aula inaugural do curso Educação das Relações Étnico-Raciais: Afrobrasilidades e Africanidades na Educação Básica reuniu cerca de mil educadores no espaço Recanto das Orquídeas, no Jardim Limoeiro, e marca um novo ciclo no enfrentamento institucional ao racismo estrutural.

Expandir o letramento racial de profissionais da educação básica não é apenas uma ação pedagógica — é um ato de reparação histórica. Neste sábado, 31 de maio, Camaçari tornou-se cenário de um dos mais significativos movimentos formativos em prol da educação antirracista no Brasil contemporâneo. A aula inaugural do curso Educação das Relações Étnico-Raciais: Afrobrasilidades e Africanidades na Educação Básica reuniu cerca de mil educadores no espaço Recanto das Orquídeas, no Jardim Limoeiro, e marca um novo ciclo no enfrentamento institucional ao racismo estrutural.
Idealizado por meio de parceria entre a Secretaria de Educação de Camaçari (Seduc) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), por meio do Campus dos Malês, o curso tem como objetivo central formar 1.200 docentes nas mais diversas áreas, articulando teoria, prática e ancestralidade. Destes, 300 atuam diretamente na rede municipal de Camaçari; os demais vêm de diversos territórios da Região Metropolitana de Salvador, do Recôncavo e de Feira de Santana.
A iniciativa é orientada pelos princípios da Educação para as Relações Étnico-Raciais (Erer), fundamentada nas Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que há mais de duas décadas estabelecem diretrizes para o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena na educação básica — mas cuja implementação plena ainda é atravancada por estruturas de exclusão e omissão institucional.
Para o prefeito Luiz Caetano, o encontro tem dimensão transformadora:
“Tem muito tempo que não participo de um momento como esse. Olha o alcance dessa formação. Nós temos que respeitar a inteligência de cada um, de cada uma, de forma igualitária. Saímos daqui hoje fortalecidos para enfrentar essa batalha do racismo. Vamos fazer a transformação.”

Já o secretário municipal de Educação, Márcio Neves, destacou os efeitos concretos da ausência de uma política antirracista estruturada:
“Camaçari perdeu recursos por falta de ações efetivas nessa área. Racismo é crime. Bullying é outra discussão. Agora, toda a comunidade escolar será envolvida em um processo rico, coletivo e transformador.”

A vice-reitora da Unilab, Eliane Gonçalves, reforçou o compromisso institucional com a lei e com os saberes africanos e afro-brasileiros. “Esse curso foi pensado ao longo de um ano inteiro, estruturado em quatro grandes campos: fundamentos da educação para as relações étnico-raciais; enfrentamento ao racismo; políticas linguísticas e práticas culturais afro-brasileiras e africanas. É o maior curso do MEC nessa temática, e a maior parte dos docentes participantes está aqui, em Camaçari. Isso revela o protagonismo do município”, afirmou.
A formação terá 180 horas, com encontros presenciais quinzenais aos sábados, intercalados por atividades online. Ao longo do curso, serão desenvolvidos projetos de ensino, pesquisa e extensão voltados à valorização da identidade afro-brasileira, à descolonização curricular e à ampliação de práticas pedagógicas antirracistas no cotidiano escolar.
A professora Maria de Fátima Cardoso, assessora técnica da Seduc para políticas educacionais voltadas às relações étnico-raciais, afirmou: “Estamos começando uma nova força-tarefa para garantir que a legislação se materialize nas práticas pedagógicas. Mas vamos além: esse é um projeto de respeito à dignidade humana. Cada educador terá agora a oportunidade de ampliar sua consciência e agir com base em princípios de equidade e justiça.”
Educadores como Iane Araújo, professora de Língua Portuguesa na Escola Maclina Maria da Glória, já desenvolvem ações voltadas à valorização da literatura afro-brasileira nas escolas. Para ela, a chegada do curso representa um momento de consolidação e alargamento do trabalho pedagógico: “Antes, a gente fazia isso de forma isolada. Agora temos uma rede, temos suporte institucional. Isso dá força para os nossos projetos e cria possibilidades reais de transformação no chão da escola.”
A cerimônia de abertura contou ainda com a presença da secretária estadual de Promoção da Igualdade Racial, Ângela Guimarães; da diretora pedagógica da Seduc de Camaçari, professora Alexandra Pereira Silva; do diretor em exercício do Campus dos Malês, professor Pedro Acosta Leyva; da coordenadora do curso, professora Carine Curinga de Matos; além de vereadores e outras autoridades municipais e estaduais.
O que se vivenciou hoje em Camaçari não foi apenas o início de um curso — foi o fortalecimento de um compromisso coletivo com a construção de uma escola pública comprometida com a justiça social, com o combate ao racismo e com a valorização da diversidade como fundamento do processo educativo.



